a casa onde eu sempre morei

Esse post faz parte do 30 Days Writing Challenge do blog Spleen Juice e corresponde ao Dia 1: descreva um lugar
a casa onde eu sempre morei
Quase certeza que foi em 1997 que mudamos pra lá. Era tão pequena e nonsense que não compreendia o que tudo aquilo significava para minha família: casa própria, nova, em bairro familiar... Lembro de ficar ansiosa pela mudança porque meu cachorro Beethoven (que morava com minha avó na época) ia poder morar com a gente e só. Eu morei 10 anos lá, mas é a casa em que eu sempre morei.
Lembro das janelas que tinham entre a cozinha e a sala (um provável pé atrás do construtor com o conceito de cozinha americana) e de odiar quando elas estavam fechadas. Ao mesmo tempo, nunca pensei em abri-las. Era como se a cozinha fosse um território proibido que eu não tinha voz. Lembro de fazer negrinho (brigadeiro, gente) no microondas. Lembro de furar o miolo do cacetinho (pão francês, gente) e encher de catchup. E logo saía dali e ia ver televisão na sala.
A sala era estranha. Não tinha sofá, só duas poltronas altas. Eram desconfortáveis, mas eu conseguia dormir a tarde toda nelas mesmo assim. Tinha uma lareira deliciosa que servia de aquecedor no inverno. Uma vez tive dois coelhos que moraram um tempo dentro dela.
O piso do andar de baixo era frio e eu odiava ficar de pé descalço nele.
O rádio onde cabia 50+1 CDs dentro. Estava escrito assim mesmo: cinquenta mais um. Como se aquele um fosse um super bônus. Você colocava os CDs na vertical numa espécie de carrossel. Meu trabalho era anotar em qual número do carrossel estavam os CDs para podermos escolher porque não, não tinha como saber que CD estava aonde. Já falei sobre ele para algumas pessoas e ninguém acredita que um modelo de rádio que cabia 51 CDs realmente existiu. Tá aqui a prova.
O meu quarto era a primeira porta subindo as escadas. Ele tinha uma parede de tijolos de vidro e móveis embutidos de marfim desenvolvidos por mim e pela minha mãe. Pintei na parede uma música do Bob Marley de tinta rosa na minha fase reggae (quem nunca?). A cabeceira da cama era uma espécie de baú e eu usava pra esconder meus tesouros mais preciosos - diários e cartas. A madeira da escada estalava durante a noite e eu morria de medo.
Um dia roubaram a casa e levaram minha fita do Rei Leão.
Lembro de riscar o chão inteiro do pátio do fundo com giz. Fazia um círculo e trazia o Beethoven pra dentro dele para ficarmos seguros - dentro daquele círculo nada poderia nos atingir. Vi isso em um filme e não lembro qual. Beethoven também fazia o papel dos leões e tigres selvagem, dependendo do meu humor. Beethoven era o vira-lata marrom e branco (daí o nome) que cuidava da casa. Ele costumava dar passeios pelo bairro sozinho e, quando voltava, ficava latindo no portão para abrirmos pra ele.
casa encantada
Perto da casa tinha outra casa cheia de miniaturas. Milhões de lendas rodavam o bairro sobre a origem desse "mini mundo". Até hoje não sei muito bem o que é, mas sempre descia uma parada de ônibus antes da minha para poder fazer o trajeto que passava por ela.
Com o tempo, a casa foi ficando ultrapassada. Era longe demais. Dava trabalho demais. Saía cara demais. E aos poucos a gente foi se desvinculando dela. Os vizinhos já não eram mais nossos amigos e os amigos já não eram mais nossos vizinhos. E de lá, vim pra cá.
Depois que me mudei, vi essa casa 3 vezes. Chorei nas 3. Chorei agora, ao encontrar ela no Google Street View. São lágrimas do bem, de saudade. Saudade da casa e de tudo que vivi nela. 
Fico pensando como a vida que levo agora é completamente diferente e como tem espaço pra essas duas vidas dentro de mim. Como aquele foi um capítulo da minha vida e agora está sendo outro. E penso em como vai ser o próximo capítulo, em como vou estar daqui a 10 ou 20 anos.
E aí descubro que, apesar de tudo que ainda quero fazer e de todos os lugares que quero morar, no fundo eu gostaria de estar nessa mesma casa, com a família que pretendo ter, refazendo os passos da família que tenho. Podia ser mais clichê? :)

Comentários

  1. Que mágico esse rádio! Serião, muito louco o Carrossel de CDS, a disqueteira (!!!) do carro do meu tio tinha só 6 lugares e a gente já ficava mega perdido. E aí, hoje, no suposto auge da tecnologia, as pessoas botam as músicas no aleatório, vai entender. haha

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  2. Primeiro tenho que confessar que estou muito feliz por você estar participando do 30 Days Writing Challenge, porque adooooro seu blog. E fico mais feliz ainda em ler um textos desses de aquecer o coração. Tive uma experiência parecida com a sua, mas em vez de casa, era minha antiga chácara. Minhas memórias de infância sempre me fazem retornar para lá em pensamento. É realmente incrível ler quantos detalhes e quanta coisa fica na gente. Hoje mesmo na faculdade a professora falou que a coisa mais importante que a gente carrega com a gente são as nossas memórias. Com esse seu post eu entendi completamente o que ela queria dizer.

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  3. Que coisa mais bonitinha e adorável de ler... Eu já sinto nostalgia só de pensar que daqui a poucos anos não estarei morando nessa minha casa tão acochegante quanto a tua parecia ser. E quem sabe algum dia esse teu desejo não se realiza hein? :)

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  4. Que linda a casa... parece realmente ser muitíssimo aconchegante! Essa calçadona larga é o máximo!
    Tenho muitas lembranças também, das casas que morei. Muito engraçado com a vida passa e as coisas mudam, né? Sempre acabo chorando ao lembrar das coisas!
    Muito legal esse... projeto/desafio? Quero participar, só preciso encontrar um tempinho! :S

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  5. Estou realmente surpresa. Nunca havia visto um som com espaço para 51 cd's. O filme em que você provavelmente viu a cena do circulo no chão, que protege a tudo o que estiver dentro, foi "A Princesinha". Amo esse filme, e o livro do mesmo.

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  6. Nicas: hahaha, né, tá tudo errado! lembro quando eu ficava esperando tocar a música que eu queria e saia correndo pra apertar o rec pra gravar uma fita - E TIPO ISSO FOI ONTEM Q?

    Dasty-Sama: aiii que legal! estava pra ir lá te avisar q ia participar e vc já me achou! hehe <3 eu tenho muitas memórias de uma antiga chácara também - pensei muito em fazer sobre ela esse texto, inclusive :) concordo com sua professora, nossas memórias são nossa maior bagagem e, em última instância, são o que nos define :)

    Anne: adorável é tipo melhor elogio <3 haha... imagina, tomara que se realize :)

    Pablo: legal o projeto né? o bom é que não tem prazos ou regras, então nem precisa se preocupar tanto :) quando você estiver afim de escrever uma coisa mais elaborada você dá uma olhadinha e vê se algum dos temas te atrai e vai fundo.

    Lolis Nabok: haha, esse rádio é um ícone! SIIIIM, EMOÇÃO QUE VC ME LEMBROU <3 <3 vou ter que rever esse filme! o livro foi um dos primeiros que eu li na vida :) - sim, eu li o livro e vi o filme e mesmo assim esqueci QUEDE MEMÓRIA

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  7. que lindo!

    mas parecia ser um lar muito gostoso de se viver. Eu vivi minha vida toda LITERALMENTE em uma única casa, até "ir morar com o namorado", e em menos de 1ano em mudei 2x. No fundo sinto falta de lá, por isso tenho que ir direto visitar! hehehehe

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